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Cachoeirinha RS - 19/07/2007

Qüe pucha! Bicho bobo

* Jorge Eduardo de Azevedo ( Marinheiro ) em 19/07/2007

          O homem é dotado de caracteres físicos, psíquicos e morais, o que forma sua personalidade. O que nos torna essencialmente capazes e por isso com o poder de escolha. E justamente por sermos assim, é que somos mais exigentes no que pode ou não nos satisfazer. O próximo deve, com isso, ser meio igual a nós mesmos, para que possamos aceitá-lo.
          Desse modo, surgem também as indagações sobre o que pode ou não ser verdadeiro. O ser humano carrega em si, muitas virtudes naturais como também, defeitos que podem muito facilmente serem maquilados, sem que se deixe transparecer. Por outro lado, o verdadeiro não tem medo da verdade e mostra sua cara. Ele fará sempre do mesmo jeito, sem se importar com quem poderá beneficiar ou prejudicar. Por isso é que muitas vezes, à primeira vista, não gostamos de alguém, ou gostamos demais já de chegada.
          Então sem generalizar, devemos estar atentos. Os bons de hoje, podem ser os maus de amanhã, assim como os maus de hoje, podem ser os bons no decorrer. Devemos pois, ponderar e dar tempo para que possam comprovadamente, cada qual em particular, mostrar a que veio.

          O erro, assim como a confusão, é próprio do ser humano. Por isso devemos nos preocupar também com nós mesmos. Podemos estar enganados e enganando outras pessoas que nada tem a ver com nossos problemas. Mesmo por que, não somos os donos da verdade. O que é certo para alguns, pode não ser para outros. Somente os animais irracionais nunca erram. Eles, por instinto sempre repetem o que a natureza lhes reservou. É o que são, e serão sempre assim. A diferença que existe entre os seres é o livre arbítrio. O irracional obedece a seus instintos e o racional escolhe hora e lugar, criando para si próprio armadilhas que nem sempre poderá se libertar.

          Assim sendo, eu tenho razão! Se é que tu me entendes. Vê se não falavam certo, quando diziam:
- “O homem nasce, cresce, fica bobo e casa.”
          E quem casa, quer casa. Não é verdade? Sabes o Adélio, é aquele mesmo que saiu do coma, lembras? Pois é, ele se casou. Depois de tantas idas e vindas. Deu-me até pena do cabra, quando começou a me contar sobre a asneira que resolvera, depois de velho, fazer. Imagine, depois de tanto tempo já amasiado. Com filhos crescidos até. Pode-se até dizer, calejado. Já tendo a muito, uma família constituída e...

          Sua vida mudou vertiginosamente. Agora, com papel passado tudo ficou diferente. Ao sair para jogar é advertido radicalmente. O cara passou a ter com isso, hora para tudo. Antes, ele sempre tinha razão e olha que ele nunca impôs sua vontade. Quando ia ao futebol antigamente podia sair cedo de casa e voltar quando melhor entendesse. Não que ele abusasse do horário, mas nunca havia sido cobrado quando eventualmente se atrasava.
“Se chegar tarde ou com cheiro de bebida, não entra!”
A dita cuja passou a usar até um palavreado diferente, quando lhe dirige a palavra. Antes quando ela se referia a ele, dizia:
“O meu anjo.”
Agora parece que lhe foram tiradas as asas. Jamais ouvira antes uma ofensa de sua boca. Hoje ela só presta para reclamar, impondo a ele limites. Doutrinando por assim dizer, sua vida.
- “Não é o Adélio, ali sentado no bar?”
- É, ele mesmo! Vamos conversar com ele?
-“Vamos!”
E assim...
- Mas me conta vivente, desabafa tchê:
“Pois é, de repente minha sogra me aparece como tal e passa a me atazanar a vida. Sabe, até então ela não havia se pronunciado. Eu nem a via desse modo. Foram raras as vezes que ela esteve em minha casa. Ela sempre foi muito amiga e etc... Virou uma jararaca! Um carrasco! Não dá pra acreditar! Sempre me tratou com o maior respeito. Na palma da mão, diga-se de passagem. Será que estavam esse tempo todo, armando a teia? Minha sogra, passou a mandar lá em casa. Futrica em tudo por lá. Eu até sinto medo de voltar.”
- Que barbaridade!
Antes eu era amparado em tudo que fazia, agora nem se compara. Consumismo lá em casa não havia. Ela sempre falava:
- “Não te preocupas, há tempo para tudo. Não vá gastar com isso agora.”
- Claro, nunca, que eu me lembre, deixei-lhes faltar qualquer coisa que fosse. Todas as suas necessidades sempre foram satisfeitas e sobrava dinheiro. Agora não sei mais o que fazer. O dinheiro que trago no bolso não dá pra nada, ela diz. Meu salário parece não ser o mesmo. As reservas já se esvaíram. Sinto que passei a não valer nada. Vejam só o que fui inventar! E não me venha com panos quentes.
- Claro que não!

          Nossas crianças estão assustadas. Quando bebo alguma coisa, o que sempre tive o hábito de fazer, me chama de bêbado e drogado, ou simplesmente de covarde. Olha, eu estive em todos os lugares. Viajei para todos os estados deste país a passeio ou trabalho. Eu nunca em momento algum, fiz um inimigo sequer. Pois fui arranjar dentro de casa, já pensou? Não existe um argumento que eu use, que a faça mudar seus modos para comigo. Não sei o que vai ser de minha vida. Sabe, às vezes eu até penso que sou culpado. Mas como me culpar, se não mudei em nada? Tem horas que a imagino com outro. Só pode ser! Ou quem sabe interessada em alguém. E que eu me tornei um atrapalho em sua vida...

          Ainda lembro, quando começamos a namorar. Que moça faceira que ela era. Só tinha olhos e ouvidos para mim. Qualquer besteira que eu falasse, era motivo de riso. Hoje, ela faz cara de nojo. Quando lhe fazia algum carinho, ela ficava toda dengosa e vinha com tudo pra cima. Hoje, quando tento me aproximar, faz cara feia me dizendo:
“Não vem que não tem!”
E eu, me sinto muito mal com tudo isso. No começo lembro que ela não saía de perto de mim nas festas que íamos. Atualmente, nem sai mais comigo. Acho que ela quer desfazer nosso casamento. Antigamente, antes de preparar qualquer comida que fosse, me perguntava:
“Querido, o que tu queres comer no almoço? Alguma comida em especial?”
Hoje em dia, nem cozinha mais. Se eu chego em casa com fome, eu mesmo tenho de preparar o que comer. E é sempre do mesmo jeito...

- Adélio, será que antes ela pensava que os bens não lhe pertenciam também? E que agora a metade é dela? Se for assim, ela é muito burra! A metade de tudo, já era dela antes do casamento. É Adélio, ela quer levar o que é seu. E tu vais ter que dar!
Mas com a mãe que ela tem, vai torrar tudo. Tu tens razão! É isso mesmo que ela quer! E eu tinha razão também quando pensei que elas estavam de caso pensado...
- Adélio, posso te dar um conselho?
Fala!
- Vai pra casa. Dorme. Não faz nada hoje! Amanhã, tu levantas bem cedo. Espera a mãe dela aparecer e lhe bota pra correr. Tu tens que ser macho! Não dá moleza! Bota pra fora a força se for preciso. De preferência, nem deixes ela entrar. Com certeza, é ela que está botando coisa na cabeça da fulana. Depois tu me falas. De duas uma, as coisas vão se ajeitar ou degringolar de vez.

          Adélio segue o conselho. Bem cedo no outro dia, sua sogra dá as caras. Adélio à porta, barra a entrada da cascavel. Foi uma gritaria só. Saía fumaça pelas ventas da velha. Parecia uma vaca bufando e dando chifradas. Adélio parado de pé no meio da porta com os braços meio abertos diz: Sua cobra, aqui tu não entras mais!
          Ela fazia menção de entrar por sua esquerda, ele dava um passo para aquele lado, segurava e empurrava sua cabeça. Ela tentava passar pela direita, ele fazia a mesma coisa, impedindo a passagem da dita cuja. Abaixava-se tentando passar por baixo do braço, ele levantava o joelho impedindo sua entrada. Tentava pelo outro lado, ele repetia com a outra perna. Assim ficaram por alguns instantes naquele baile de vai e vem. Até que ela não se contem e diz: - Se tu não saíres da minha frente, eu vou te encher de porradas. Pois então tentas, ele fala. Enfurecida ela começa a agredi-lo a tapas e dá-se inicio a peleia. Por sua vez, Adélio apenas se defende e empurra a mulher.
          Naquele momento, todos na casa se acordam. A fulana chega e também se bota no coitado. O Adélio se vê estreito e começa a dar socos até na sombra delas. Começou a aparecer à vizinhança e o bolor estava formado. Por surpresa do Adélio, não havia sequer uma viva-alma ali presente que não queria estar no seu lugar. Não para apanhar, como estava acontecendo, mas para bater, o que nosso amigo fazia muito pouco. Mas quem disse que uma torcida não ajuda e faz mudar o resultado? Aquele povo todo fica eufórico e começa a gritar: - “Adélio, Adélio. Viva o Adélio. Bate mais Adélio.”
          O pobre do Adélio, a estas alturas já estava com as mãos arrebentadas. Então com aquele incentivo todo, parte para cima das duas também a tapas. As bordoadas correram soltas por todos os lados. Era palmada pra cá e palmada pra lá. Puxavam seu cabelo e ele o delas. Rolavam pelo chão. Levantavam e caíam de novo.

          Finalmente Adélio ganha a briga. As duas mulheres com suas caras inchadas, meio arrochadas, sentindo-se envergonhadas pelo escândalo feito, desistem da luta. A velha fica parecendo um saco de batatas. Toda encaroçada, pega o caminho de volta sem conseguir seu intento. Sua mulher volta para dentro de casa, também meio inchada, envergonhada pelo fiasco, mas, calada, fecha a porta bem de vagarinho.
          Adélio, sorridente é aplaudido por seus vizinhos que pareciam não querer ir mais embora. Resumindo, Adélio entra em casa dá mais uns gritos com a dita cuja, dizendo:
          Podes pegar tuas coisas e botar o pé na estrada. Ou então fica bem quietinha no teu canto. E outra, nunca mais eu quero botar os olhos nessa bruxa que tu chamas de mãe. Eu vou dar uma banda agora para tomar umas bitrucas e quando eu voltar, quero ver o almoço pronto, caso contrário vou te vestir o casacão que está atrás da porta.
- “Não entendi! Que negócio de casacão é esse?”
- Não é pra entender mesmo. Isso já é outra história que um dia te conto...
* Escritor


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