Responsabilidade sobre o conteúdo das matérias Literatura Contos

Cachoeirinha RS - 08/10/2007

O Condomínio

* Jorge Eduardo de Azevedo ( Marinheiro ) em 08/10/2007

       Voltava daquela partida de futebol há muito esperada. Era a final do campeonato municipal de 1930, Costão x São Cristóvão, e não deu a lógica. O São Cristóvão era o favorito, mas perdeu em 2x1 para o time da casa. Depois de muito festejar, juntamente com os jogadores e diretoria, onde a comida e bebida correram soltas, aquela grande torcida de fanáticos costaneiros, como eu, foi se dispersando. Cada um foi pegando seu destino, voltando para sua casa. A maioria dentre todos se encontrava embriagada, já que é muito difícil uma grande comemoração sem trago. Eu, na verdade, nunca fui um poço de virtudes e quando bebia ninguém me segurava. Naquela tarde não foi diferente. Depois da comilança e bebedeira, eu também peguei meu rumo, quase caindo, e aos tropeços tomei a estrada de volta.

       A tarde estava no final. A noite caía lentamente, minha casa já estava logo ali. Absorto em meus pensamentos incoerentes, já que bêbado não se governa e nem mesmo consegue coordenar o pensamento, sentei para descansar na escadaria daquele portal.

       Quando ao percorrer aqueles corredores sem janelas, mas repleto de portas, encontro inúmeras pessoas com o semblante abatido. Algumas que até sorrindo se dirigiam a mim mas com palavras sem nexo. Tento conversar com alguns velhinhos sentados num banco de praça e, parece que eles nem me vêem. Olho para todos os lados e penso: como vim parar aqui? Não reconhecia ninguém no lugar e por ninguém era reconhecido. Já não sentia mais a bebedeira. Haviam pontos, naquele ambiente, bem iluminados, mas a maioria das pessoas, que ali se encontravam, pareciam preferir partes mais escuras e sombrias. Para todos os lados que eu olhava era igual. Caminhavam sem uma direção pré-determinada e eu observava mas não sabia o porquê daquilo. Aparentemente existia uma razão lógica para eu me encontrar naquele local, mas não tinha a menor idéia do que seria. Eu, na verdade, não sabia onde estava. Não lembrava como havia chegado nem como sair dali e...

       De repente escuto um lamento por de trás de uma das portas, do que, no meu ver, seria o corredor principal daquilo que parecia ser um condomínio fechado. Bato na porta e lá de dentro alguém responde:
- Pode entrar...
Ao perceber minha presença, o menino diz:
- Até logo! Como se despedindo de alguém.
Percebo que aquela criança é diferente dos demais. Sem tirar os olhos da porta me pergunta:
- O que queres aqui?
Então eu falo:
- Eu vim a teu chamado.
- Eu não te chamei, me responde, mas já que viestes, podes sentar.
- Quem és tu? Pergunto ao menino.
- Eu me chamo José, mas podes me chamar de Juca, é assim que minha mãe me chama. E tu?
- Eu sou Adélio. Tu moras aqui?
- Não! Estou apenas passando uns tempos, eu acho.
- Por quê, eu acho? Pergunto.
- Tu não vistes aquele homem, que saiu quando chegavas?
- Não percebi.
- Pois foi ele quem me trouxe. Ele me falou que seria por muito pouco tempo.
- aquelas pessoas lá fora, também ficarão por pouco tempo?
- Tu falas das outras crianças?
- Não! Dos velhos que eu vi no pátio.
- Queiras me desculpar, mas aqui não há nenhum velho com, certeza. Tu dissestes que te chamas Adélio não é?
- Sim.

       Como que reprisando em sua mente, foi contando tudo sobre seu passado. Uma história que, no seu entender, duraria uma eternidade, ao contrário para mim, pois não passava de um simples relato. Como afinal uma criança poderia ter muito a contar?
- Quando eu completei quatro anos, continuou ele, ainda me lembro como se fosse hoje, havia na mesa da sala um bolo muito bonito. Muitas crianças vieram festejar e comemorar comigo meu aniversário. Lembro de minha mãe toda sorridente dizendo: Esse é meu Juca. Essa é a criança mais linda do mundo. Até parece né? Para uma mãe seu filho sempre é o mais lindo.
- É, como se fosse novidade, complementei.
- Tu estás me chamando de feio?
- Não. Não foi a intenção. Eu apenas estou acompanhando teu raciocínio.
- Ah bom! Então, continuou ele, a cada aniversário comemorado lá em casa, sempre era uma grande festa. No ano retrasado, além do meu, comemoramos do meu irmão Romeu e de minha irmã Romilda. Foi uma beleza. Todos cantavam, corriam e gritavam. Até este meu amigo, que tu não viste sair, estava lá. Mas este ano foi diferente...
- Mas este homem a quem te referes já era teu amigo antes de tu vires para cá?
- Não! Eu pensei que ele fosse amigo de meu pai.
- Como se chama teu amigo?
- Ao certo eu não sei. Ele, quando questionado, diz sempre que tem muitos nomes e não me fala. Então eu o chamo de amigo simplesmente. Num determinado dia, minha mãe não foi me buscar na saída da escolinha. Já na rua fui recolhido por este amigo e foi quando me trouxe para cá. Deste dia em diante não me foi permitido ir mais à escola. Meu amigo sempre fala: Teus colegas estão em férias. E eu sempre pergunto: Quando vão acabar? Qualquer hora destas, ele responde. Para que tenhas idéia, estive uma vez, lá em casa, na companhia de meu amigo. Tudo estava diferente. Tudo mudado. Meus irmãos eu não encontrei em casa. Meus pais, sim. Mas eles eram tão mais velhos! Meu pai estava muito parecido com meu avô e minha mãe era a cara da mãe dela. Eu quis falar um monte de coisas para eles. Mas parecia que eles não estavam lá. Estavam, mas não estavam. Tu entendes?
- Sim, estou começando a entender.
- Algumas vezes eles vinham me visitar. Eu ficava muito feliz com isso. Eles falavam um monte de coisas sem que eu lhes entendesse, mas eles estavam comigo e eu gostava.. No princípio lhes pedia: Me levem pra casa. Eu quero ir junto. Eles não me ouviam ou não entendiam. Com o tempo, eu já gritava, berrava e nunca consegui ser escutado. E eles, de vez em quando, voltavam. Hoje eu não sou visitado por ninguém. Há muitos dias que espero em vão, ninguém aparece. Eu não fui acostumado a viver tão sozinho. Por quê ninguém me leva de volta pra casa? Eu não sei o caminho de volta. Meu amigo tem outros compromissos, não pode ficar sempre comigo. Eu quero ver minha mãe. Eu nem lembro da cara de meus irmãos, eles nunca vieram aqui. Eu acho que eles nem sabem onde estou. Coitados!
- Quanto tempo faz que estás aqui?
- Pouco tempo, eu penso. Só não entendo como meus pais mudaram tanto e por que eles não aparecem mais aqui.
- Tu tens muita vontade de voltar para casa?
- Por quê? Tu sabes como me levar de volta?
- Não, eu nem faço idéia. Tu já tentaste falar com a mãe do teu amigo?
- Mas ele tem mãe?
- Deve ter. Tu conheces alguém que não tem?
- Não! Não conheço, mas eu não sei como chegar à ela.
- Quando sentes a necessidade de falar com teu amigo como fazes para encontrá-lo?
- Eu chamo por ele. Às vezes, demora. Mas ele sempre me atende.
- Por quê, ao invés de chamá-lo, não chamas a mãe dele? Quem sabe ela não te faz uma visita também. Te lembras como foi que eu cheguei aqui? Não foi a teu chamado?
- Tu ouviste eu te chamar?
Não, eu nada ouvi, nem sabia que tu existias, mas só pode. Então como tu explicas o fato de eu ter vindo, de eu estar aqui?
- Verdade, não tem explicação. Mas eu não lembro de tê-lo chamado. E também não sabia de tua existência.
- Eu não sei como explicar, nem sei mais o que te dizer, mas uma coisa é certa: Nosso lugar não é aqui.
- Vamos supor que a mãe de meu amigo venha a meu chamado, o que eu digo para ela? Ela com certeza nunca ouviu falar de mim.
- Como podes saber? Mas fale de tua tristeza. Das tuas carências de pai e mãe. E que tu és apenas uma criança que sofre com a saudade. No mínimo, ela te fará companhia e te confortará. Peça para ela intervir junto a teu amigo. Um filho escuta e atende sempre a um pedido de mãe e...

       De repente, um clarão me surge diante dos olhos. Havia amanhecido o dia e me vejo novamente na escadaria daquele portal. Levanto dali aliviado por ter saído do sonho que tive e boto o pé na estrada novamente. No caminho de casa, relembro daquele menino. E como parecia real! Ando menos de quinhentos metros e na bifurcação avisto duas casas. A maior delas com uma particularidade. Em sua parede frontal, vejo uma faixa de tecido branco com os seguintes dizeres:
- Quero apresentar a todos meu Juca – “BIXO” de Direito da Unival 1930 -
* Escritor


Voltar Mais Contos...


Editora do site: Vital Comunicações - WhatsApp e Fone OI (51) 98406-0092 e-Mail: juarez@owicki.com.br