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Itajaí SC - 26/10/2010

Kriseide

* Samuel C. Costa em 26/10/2010

       Estar ali, em princípio era um tanto inusitado, o jovem promotor não combinava em nada com o bar do Garrafão e isso era um fato. Ao adentrar no recinto, Missael Da Maia não notou os olhares furtivos e estupefatos dos que ali frequentavam. Os operários, em sua maioria trabalhadores do mar e da construção civil, e algumas figuras bem comuns do submundo, olhavam o indivíduo ainda de terno e gravata, de pele morena e os olhos ligeiramente puxados, como se fosse um animal exótico. Em uma olhada rápida pelo local, o promotor encontrou afinal quem estava procurando. O policial militar estava jogando cartas, em um canto do bar. O promotor notou que o policial militar era o único branco no lugar. Era quase isso, havia também uma jovem mulher de pele alvíssima e olhos claros no fundo do bar. Ela parecia alheia aos palavreados chulos, ao barulho que saia da jukebox, o cheiro de álcool e de cigarro barato do local.
- Uma cerveja, por favor! Pede o "doutor Da Maia" ao sentar junto ao balcão. Teve ímpeto de tirar do bolso um cigarro importado e acender em um gesto teatral.

       O dono do bar não esconde o nervosismo ao atender o inusitado freguês.
- O que "tu" quer vindo aqui? Pergunta de forma áspera o dono do bar. Antecipando a pergunta de algum "habitue" do recinto, questionou Missael dessa forma para evitar algo pior.
- Doutor Da Maia, o que veio fazer neste covil de bestas? Era o soldado Silverinha, que viera acudir o jovem promotor. Deixara a jogatina a dinheiro, e também por diversão, para ver o que aquele guri queria de fato ao adentrar naquele recinto.
- Eu só queria tomar uma cerveja, e mais nada soldado...
- Hora doutor "tu" não "ta" no tribunal, o expediente acabou faz tempo! Oh! Garrafão, manda a cerveja que o meu amigo pediu, na mesa de fora.

       O que passou na cabeça do promotor naquele momento, foi como seu velho pai, que nascera em Angola e andara meio mundo, sempre em áreas de conflito, sobrevivera a lugares como aquele ou piores ainda. Estar ali era também uma forma de entender o seu velho pai, entrar no mundo do seu progenitor. Missael de repente lembra de uma advertência do velho Aristo: - Meu filho, antes de tudo procure entender as pessoas, e só assim meu filho, vais encontrar o teu lugar nesse mundo. Senão compreenderes as outras pessoas, não compreenderás a ti mesmo. E de fato compreender o pai era um mistério para Missael. E procurá-lo em lugares como aquele, mesmo que de forma inconsciente, era uma forma desespera de encontrar a si mesmo e seu lugar nesse mundo. E foi com o frescor da noite na frente daquele bar no bairro periférico que Missael começou sua procura desesperada para entender o seu pai e a si mesmo. Foi quando a mulher que estava no fundo do bar decidiu sair de onde estava, caminhou pelo bar sem que ninguém a importunasse. Passou entre o soldado Silveira e Missael, deixando um perfume forte de flores no ar. Saiu porta afora como se flutuasse e desapareceu em meio à noite escura, como se fosse um fantasma. Missael ficou angustiado com aquela figura, queria ir atrás dela a fazer mil perguntas. Mas ficou com medo, não de perguntar, mas das respostas que aquela criatura etérea poderia lhe dar.
- O que o senhor quer comigo doutor? Por que veio me procurar aqui?
- Quem disse que vim te procurar, soldado?
- Olha doutor, "to" a um "tempão" trabalhando na polícia, estou vivo a um bom tempo nessa minha profissão, e por isso não me trate como um qualquer...

Missael deu uma risada alta, chamando a atenção de todos para os dois, sentados à mesa no lado de fora do bar.
- Algum problema tenente? Quem perguntava era Sebastião ainda com o taco de sinuca na mão. O pescador com sua cor de ébano e dois metros de altura não intimidou Missael.
- Nada Tião, meu amigo começou a beber e parece que "ta" bêbado.

Foi o suficiente, para que todos começarem rir, menos Missael, que se fechou em uma cara de poucos amigos.
- Sabe de uma coisa? O teu apelido por ai é Japa, os teus amigos engravatados te chamam assim meu caro doutor... Disse isso e começou a rir com uma criança. Silveira estava em seu habitat natural, ali não era um soldado. A disciplina de quartel não cabia ali, muito menos a lógica dos tribunais. Missael começou enfim a perceber e a entender as pessoas.
- Minha mãe é da etnia Wapixana, meu pai é africano, tenho tanto quanto mais direito de frequentar esse bar exclusivo, só para nativos, seu branquelo palmito. - O tom de voz de Missael assustou Silveira.
- Olha doutor, olha bem para o Tião, quando entrei nesse bar pela primeira vez, ele queria me matar. Ele não gostou que um estranho, de um branco azedo como eu aparecer por aqui por essas bandas, entendeu meu caro doutor Japa, este é um dos poucos lugares aonde gente engravatada não manda!
- "To" começando a ficar comovido soldado! Missael não media as palavras que dizia, o álcool já fazia efeito em sua mente.
- Só não me partiu em dois, por causa do taxista que me trouxe aqui pela primeira vez, ainda posso ver a confusão e o sujeito a dizer: "Não bate no tenente". Era meu primeiro dia na cidade e eu "tava" a paisana. Sabe o que eu disse para o Tião depois que ficamos amigos? O que é um branco senão um negro virado do avesso?
- Nossa! Então é isso, devo caprichar na minha estampa quando eu voltar aqui de novo?
- Queria saber o que tu "quer" comigo, doutor, vou te perguntar de novo. Por que veio aqui atrás de mim?
- Como o Fábio Ramos morreu?
- Quer saber como aquele asqueroso morreu? É só ler os autos do processo doutor, porque nos jornais não saiu nada!
- Hora! não foi isso que eu perguntei soldado Silveira, perguntei como foi que o promotor que eu substituo morreu!
- Kriseide era o nome dela, um raio de sol no meio da escuridão caro amigo. Dizem que quando ela passava deixava um rastro. Cheiro de flores, outra coisa que o povo conta é que ela era cigana ou filha de ciganos, coisa assim. Olhos claros e pele branca igual a uma cera, rosto perfeito... ainda quer ouvir o resto doutor?

Missael estava um pouco apreensivo com o rumo da conversa, esses assuntos em cidades pequenas em geral eram coisas delicadas. Não sabia o rumo que iria tomar essa conversa "informal". Mas decidiu ir enfrente com a coisa toda, não poderia seguir sem saber aonde estava se metendo.
- Quero sim, quero saber de tudo!

O policial militar não sabia, e não tinha como saber, mas Fábio e Missael estudaram juntos na universidade e eram bons amigos. Foi Fábio que o convenceu a fazer o concurso para promotor. Ambos fizeram, e Fábio tirou o primeiro lugar, Missael o segundo.
- Essa mulher esquisita, que tinha o péssimo hábito de fazer os homens se apaixonar por ela. Acabou se casando com o nego Acácio, foi um alívio para as mulheres casadas e para as solteiras também. E um desespero para alguns homens casados e solteiros. O teu colega de ofício era um desses desesperados, e não gostou muito de ver aquela beldade com um negro qualquer. O Soldado para de falar e bebe um gole de cerveja, bebia como para tomar fôlego - Então um dia o jovem promotor possesso decidiu acabar com a coisa toda, com aquela afronta. O promotor Fábio saiu do fórum, dizem, passou naquele bar chicoso no centro da cidade, tomou umas e outras, e foi atrás do nego Acácio para tomar satisfação. Ele foi encontrar Acácio na casa dele, aí dizem que o doutor Fábio acabou matando o pobre coitado. O resto o senhor sabe, creio eu, a fuga, as quarenta e oitos horas, a prisão, curso superior, cela especial, processo, família influente, absolvição...
- Nossa! Não li metade disso nos autos...
- Novidade caro doutor Japa! O que esperava ler?
- E a mulher? O que aconteceu com ela?
- É aí que a porca torce o rabo meu bom doutor Japa, alguns dizem que ela se matou, já outros preferem disser que ela pegou um barco qualquer e sumiu em alto mar. O negócio foi que a mulher desapareceu como por encanto após o nego Acácio ter morrido.
- Mas isso não explica o fato...
- Não explica como o seu colega de trabalho apareceu morto dias depois do julgamento não é? O jovem promotor apareceu morto na casa dele, tinha um buraco na cabeça... o engraçado caro amigo doutor Japa era o cheiro quase insuportável de flor no lugar. Aí cada pessoa sentia um cheiro diferente de flor! Parecia um suicídio, não encontraram as digitais na arma que encontraram ao lado do corpo...
- Essa mulher, será que está morta mesmo? Missael sente a garganta seca ao fazer a pergunta para o soldado.
- Olha! Com esses anos todos de polícia que tenho nas costas, eu não me engano meu caro amigo doutor Japa. Deve estar morta sim, mas o que fica na cabeça das pessoas é o que importa. E a imagem dela que todos têm é daquela criatura...criatura...
- Etérea...que andava como se flutuasse... e o cheiro de rosas que exalava quando passava, os olhos claros e a pela branca com uma cera!
- Kriseide era uma mistura de anjo e demônio meu caro amigo doutor "Japa"!
* Contista (Itajaí/RS)


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