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Cachoeirinha RS - 18/01/2017

O vulto na estrada

* Jorge Eduardo de Azevedo ( Marinheiro ) em 18/01/2017

Lá estava aquilo que ninguém sabia explicar o que era.
Alguns falavam sobre o vulto branco. Outros diziam:
— Vi uma nuvem negra aparecer de repente e depois sumir.
Envolvidos talvez por infortúnios da vida cada um via aquilo que queria ver. Mas, ninguém podia negar ou ignorar! —Alguma coisa havia à beira da estrada.
Teve alguém um dia que falou:
— Senti um calafrio quando passei por lá.
- Viste alguma coisa? - perguntaram?
— Não, nada vi. Apenas lembro do medo que se apoderou de mim.
Passavam-se os dias e o medo de quem tinha de passar por aquela estrada, só aumentava. Teve alguém que disse ter ouvido uma voz trêmula, murmurando:
— Uaa, uaa.
Não entendeu e correu dali como louco. Sem ter coragem nem de olhar para trás.
Ninguém, contudo, sabia explicar tal fenômeno.
Um dia, numa roda de chimarrão, todos crédulos ou incrédulos, presentes por um motivo ou outro ali estavam. Era noitinha e de onde estavam se via o clarão arrochado lá longe, naquele caminho que ninguém queria fazer. Adélio, que nestes tempos trabalhava na paróquia ajudando ao padre em tudo que era possível, por medo chegara de dia para buscar o leite.
À noite, conforme dizia meu avô Eduardo, era silenciosa e muito traiçoeira. Deixava todos muito à vontade, até mesmo para pensar besteiras e cair na asneira de sentir medo, meramente. Cada um estando só, por livre arbítrio pensa no que quer.
Naquela noite escura, Adélio precisava voltar para casa. Aquela empreitada, nosso amigo Adélio teria de enfrentar sozinho. Ninguém, em sã consciência, lhe acompanharia. O imenso medo que sentia não lhe livraria do seu afazer.
Adélio, morador da vila, maldizia seu mestre naquele dia. Aterrorizado, lembrando do retorno, sabendo que não tinha como voltar atrás, pegou o tarro de leite e saiu. A noite já havia caído por completo. Além da escuridão, a rua era estreita com valetas profundas abertas paralelamente àquele caminho, com a finalidade de conter a água da chuva, quando caía de maneira mais torrencial, impedindo que inundasse a lavoura. O pasto de elefante crescido de maneira demasiada, à margem da estrada, sombreava ainda mais aquela rua com muitos altos e baixos, marcados pelas rodas de carretas que passavam diariamente por ali, só dificultando a passagem por aquele caminho cheio de pedras soltas, onde eventualmente Adélio tropeçava. Neste ponto, nesta noite sem luar em qualquer direção que olhasse, nada enxergava e nem via por onde andava. O caminho era só aquele e ele estava sozinho. Não olhava mais para os lados. Não queria pensar em nada, mas não podia evitar. Então tentava lembrar dos conselhos que sempre ouvira de seu educador. Recordava que ele sempre lhe afirmara que o medo está na cabeça de casa um. E que as superstições são coisas que foram inventadas para nos assustar e que não deveriam ser levadas a sério. Mas Adélio já era assustado por natureza e não conseguia evitar. A cada passo que dava, aumentava o pavor. Adélio, já havia rezado tudo que sabia. E quanto mais rezava, maior era o desespero que se apoderava de sua pessoa. Cantava em voz alta e até em pensamento já tinha cantado e não conseguia afugentar o terror que estava sentindo. Sabia que, cedo ou tarde havia de passar por lá. Nem imaginava o que o destino lhe havia reservado.
Adélio, já cantara tudo que sabia. Já tinha orado de todas as maneiras e o medo aumentava. As pernas tremiam. Os passos aconteciam por força de expressão. Já não sentia que andava, não tinha forças pra nada, nem mesmo para correr, se fosse preciso.O silêncio que havia só servia para aumentar a apreensão que estava passando. O clarão, estava logo ali, mas não iluminava nada a sua volta. Estava, mas parecia não estar. Adélio olhava naquela direção e não conseguia definir o que era. Ele podia ver. Parecia quente, pela luminosidade, mas era gelado. De onde Adélio se encontrava, percebia que aquela luz partia de baixo para cima, o que no seu entender era estranho. Nunca em sua vida, havia deparado com algo tão assustador. O silêncio de repente foi cortado! Adélio que, até então, ouvia somente sua respiração, sobressaltado parou de respirar. Sentia tanto pavor que não acreditava no que seus olhos lhe mostravam. De repente, não mais que isto, ouviu:
— Ta lá e um vulto ergueu-se em meio aos arbustos, indicando a direção. Olhou e nada viu. Olhou novamente quase que perguntando:
— O que? Onde?
E o vulto, juntamente com a luz, desapareceu.
* Escritor


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